Entrevista com D. Fernando Rifan

No dia 24/12/2008, eu tive a oportunidade de ir a Campos-RJ, onde está a catedral da Administração Apostólica Pessoal S. João Maria Vianney para assistir à Missa do Galo com S. Excelência D. Fernando Arêas Rifan.
Desde há muito tempo tenho tido a honra de ter como amigo esse sucessor dos apóstolos. Ele tem sido mais que um bispo formalmente falando. Tem sido amigo, um pai… Ele nos apoiou desde o começo da missa tradicional aqui em SP. Começo, diga-se, regular. Regular tanto na frequencia (não mais quinzenal ou mensal, mas semanal) e regular na situação canônica, já que em plena comunhão com a Santa Sé.
E, sendo que esse ano, nós ganhamos de Deus, pelas mãos de S. Excelência o melhor presente que poderíamos sonhar (um sacerdote permanentemente aqui), eu tive também a oportunidade de vê-lo e agradecer por tantos paulistanos que ficaram deveras gratos. Pude também deixar um singelo presente para ele, naquele dia tão sagrado, simbolizando minha gratidão e amizade. Eu estive em Lisieux, entre tantos lugares, e não voltaria de lá sem uma lembrança para ele.
Daí que eu disponibilizo aqui no blog essa conversa que tive com D. Fernando, após prévio consentimento dele. Será muito bom para nós aprendermos mais da Igreja e conhecermos mais a D. Fernando Rifan, um bispo tão caluniado, mas que tanto tem feito pela nossa fé.
Tantum Ergo – D. Fernando, fale-nos um pouco da sua pessoa. Como foi sua vocação?
Dom Fernando – Bom, vocação é um dom sobrenatural. É um chamado de Deus. E como é chamado de Deus na alma, interno, a gente só pode reconhece-la pelos “sintomas”. Assim, a vocação se mostra pelas inclinações que a gente vai sentindo. E também ela está condicionada a uma porção de ambientes. Por exemplo, meus pais eram católicos, meu pai era congregado mariano e minha mãe, do apostolado da oração. Eu fui criado naquele ambiente desde pequeno: eu ia ao catecismo, eu era coroinha na Igreja. Então a gente vai tomando gosto por aquelas coisas e também a vontade de ser padre. Como criança, eu não compreendia bem o que era tudo isso. A gente vai compreender mesmo, quando vai para o seminário! Aí eu falei que queria ir para o seminário. Eu fui com doze anos de idade e lá no seminário que eu fui estudando mesmo minha vocação. Estudei doze anos no seminário e me ordenei padre com 24 anos de idade. Quer dizer, é nesse período de tempo que a gente vai vendo, estudando mesmo se é aquilo que a gente gosta. E o gosto pelo estudo da Igreja, dos estudos eclesiásticos, pelas coisas da Igreja, liturgia e tudo mais. Então se pode ver a vontade de Deus a nosso respeito. E eu tive vontade de continuar, e assim me tornei padre. Fiz agora 34 anos de sacerdócio.
TE – Como é a plenitude do sacramento da Ordem, já que só o bispo a tem? É diferente?
DF – Como vocação não é diferente, mas teologicamente é. É que com o episcopado se recebe o máximo do sacramento da Ordem. O sacramento da Ordem é dividido em 3 graus: diaconato, presbiterado e episcopado. Então o grau máximo é o episcopado. O grau máximo do sacerdócio é ser bispo. O bispo tem a plenitude, portanto, do sacramento da Ordem. Só para exemplo, o Papa não tem mais que um outro bispo como sacramento da Ordem. Portanto em questão de poder de Ordem o episcopado é o máximo. O Papa é mais porque ele é bispo de Roma. Aí ele tem o poder máximo de jurisdição. Mas quanto ao poder de Ordem, o máximo é o episcopado. Por isso mesmo, só o bispo pode ordenar outros sacerdotes, ele é sucessor dos apóstolos, faz parte do colégio apostólico.
TE – Dom Fernando, falando no Papa, ele tem dado muitos sinais interessantes: o motu próprio, ele dando a comunhão de joelhos aonde ele tem celebrado. E sabe-se que ele deseja marcar mais a diferença e a sacralidade da missa, porque corre na internet que inclusive ele colocaria o Cânon da missa em latim. O que podemos esperar mais nesse sentido de Roma?
DF – Eu acho que tem que se esperar. O Papa tem demonstrado agora – em continuidade, mas agora mais ainda – o desejo de fazer uma reforma na Igreja, especialmente na parte da liturgia. Ele tem escrito que ele mesmo atribui boa parte da crise atualmente na Igreja à liturgia, à derrocada da liturgia. Os problemas litúrgicos. Às vezes não se respeita a liturgia, em nome da liturgia faz-se muita coisa. Como a liturgia é o centro da Igreja, é o coração da Igreja, em muitas coisas o papa tem mostrado como ela deve ser. Tudo de modo sagrado, respeito, aquela coisa santa. E agora com essas pequenas demonstrações. Por exemplo, o novo cerimoniário, que é Guido Marini, tem colocado para o Papa os paramentos romanos, quatro velas no altar, o crucifixo no centro, mostrando que isso também tem vida na Igreja.
TE – Que não é uma coisa ultrapassada…
DF – Não, pode-se usar. Inclusive no dia em que ele celebrou o cinqüentenário do papa Pio XII, ele celebrou com paramentos romanos. Para mostrar que existe isso na liturgia. Muitas coisas bonitas: o palio, a forma do palio. Então, pouco a pouco, ele está restaurando essas coisas, que são sempre antigas e sempre novas, na Igreja. A gente vê, por exemplo, que a Igreja oriental sempre guarda todos aqueles paramentos, aquelas liturgias, aquela beleza externa. Porque, embora a liturgia latina seja um pouco mais sóbria que a oriental, ela também não pode perder todo o seu valor. E o povo gosta disso. Por exemplo, ninguém dispensa uma parada militar com todos os soldados uniformizados e com disciplina, uma banda tocando, etc. São coisas antigas, mas que são bonitas e atraem todo mundo. Assim também na liturgia, todas essas coisas se guardam, tanto mais que são coisas antiqüíssimas na igreja… Isso vale a pena. Então o Papa tem ressaltado isso, o Motu Proprio, a permissão da missa tradicional foi feito exatamente para dar um pouco de balanço. Para contra-balançar esses abusos litúrgicos que muitos fazem na forma ordinária do rito Romano, ele colocou o rito tradicional, antigo, exatamente para mostrar a todos como se deve celebrar. E para alcançar exatamente isso: essa paz litúrgica e a melhora na liturgia.
TE – D. Fernando, vindo para o nosso contexto mais imediato, conte como andam as vocações.
DF – Tem melhorado. Mas ainda é preciso mais. Porque vocação, um seminarista ou uma pessoa consagrada, não cai do céu ou de outro planeta. Ele sai da sociedade. Se a sociedade se deteriora muito, claro que as vocações serão poucas. A falta de generosidade, o amor excessivo pela liberdade, isso impede a vocação. Quase ninguém hoje admite ser colocado num regime de disciplina, admite ter um superior para obedecer, não quer deixar o mundo. Então a crise das vocações é também a crise das famílias, a crise da sociedade. Mas graças a Deus tem melhorado. No nosso seminário graças a Deus temos muitas vocações. Mas é preciso muito mais. Pela necessidade que nós temos de padres, precisaria de muito mais vocações. Jovens rapazes que dedicassem sua vida ao sacerdócio e religiosas que entregassem também sua vida a Deus. Pessoas consagradas, leigos consagrados.
TE – Temos perspectiva de mais sacerdotes?
DF – Dia 21/12/2008 eu ordenei mais um sacerdote. Ano que vem, vamos ter mais dois. Inclusive um deles é de São Paulo, que é o Adriano. E aos poucos vamos preenchendo as vagas, as necessidades.
TE – D. Fernando, há em Campos alguns institutos de vida consagrada ligados à Administração Apostólica. Por qual motivo não se fazem fundações dessas famílias Brasil afora, já que isso seria um meio eficaz de promover a missa no rito tridentino e também incentivar mais vocações?
DF – Bom, precisa haver irmãs para isso. Mas nós já temos muitas, mas não o suficiente. As irmãs de Bom Jesus mesmo foram reconhecidas pela Santa Sé como instituto de vida consagrada. É o Instituto do Imaculado Coração de Maria e S. Miguel Arcanjo. Essas estão em várias paróquias já. Há em Bom Jesus 36 irmãs de votos perpétuos. Cuidam do asilo de Bom Jesus, cuidam da creche, do colégio. Estão em Bom Jesus, em Santa Maria, em Campos, auxiliam o seminário e em Porciúncula. Tem então cinco comunidades já espalhadas. Claro que há possibilidades de irem para outros lados, mas temos que primeiro satisfazer as necessidades daqui. Inclusive há uma paróquia que está pedindo e não tem irmãs ainda para mandar. Temos ainda as irmãs de S. João da Barra, as de Itaperuna, do Terço, de Santo Antônio de Pádua, de Varre-Sai…
TE – Falando em particular de São Paulo, temos a missa há cerca de uns 5 anos mais ou menos já. Como S. Excelência via o grupo de fiéis que se reunia no começo e como S. Excelência nos vê hoje. S. Excelência acha que houve progresso?
DF – Bom, antes da Adm. Apostólica, o atendimento era meio precário pois estávamos em situação irregular. Aí com a Adm. Apostólica, eu falei com D. Cláudio Hummes (era o cardeal de SP então) e ele falou: “Eu não só permito, como eu quero. É meu desejo que em São Paulo haja uma igreja em que se celebre no rito tridentino”. Depois de procurar várias igrejas, que era uma coisa meio difícil, ele achou melhor a Igreja de Sta. Luzia. E ali nós ficamos até hoje. Começou direitinho, um grupo pequeno. Mas agora já estamos com 3, 4 missas, já está ficando bem cheia. A igreja ali é pequenininha, mas é muito aconchegante, piedosa, bonitinha. E muito central. Isso ajuda muito. E há também outras comunidades que pedem a nossa ajuda e a gente vai lá. Os nossos padres que atendem lá têm uso de ordens dado pelo seu cardeal, D. Odilo. Então eles atendem ali, atendem as pessoas, atendem no mosteiro de S. Bento. Atendem outros lugares também, mas na medida das possibilidades, não é?
TE – É um desafio pastoral para S. Excelência o crescimento do número de fiéis em São Paulo, já que como S. Excelência mesmo mencionou, cresceu muito. Antes tínhamos uma missa, hoje temos três só no domingo (2 na Sta. Luzia e 1 no mosteiro), além de sábado (que tem na Sta. Luzia e de 15 em 15 dias tem em São Bernardo do Campo). É então um desafio, já que demandou inclusive um padre fixo lá para São Paulo?
DF – Claro! Cresceu e houve a necessidade de ter um padre fixo lá, dada a expansão do apostolado. É um bom sinal. O grupo cresceu e estava precisando desse trabalho. Padre Jonas tem feito um bom trabalho, o mosteiro também está contente.
TE – S. Excelência tem planos, objetivos pastorais em relação à nossa comunidade em São Paulo? Se sim, quais?
DF – Os planos seriam os seguintes: lá, em primeiro lugar se transformar numa paróquia. Uma paróquia pessoal. Seria melhor e poderia se organizar mais coisas. A vantagem de uma paróquia pessoal é que não só tem a missa, mas tem batizado, tem casamentos, preparação para a 1ª Comunhão, catequese, trabalho social. Tudo isso ligado a essas pessoas que amam a liturgia na sua forma antiga. Porque não é só a questão da missa. Tem catequese, vida comunitária, vida paroquial. Então isso também é necessário. Claro que não depende de mim. Mas eu já pedi ao cardeal, depende da decisão do cardeal. Mas estamos à disposição para ajudar.
TE – O que mais S. Excelência deseja ver cultivado entre nós como comunidade? E o que deveríamos evitar?
DF – Olha, é aquilo que o Papa já me falou: “Vocês são exemplo para quaisquer comunidades ligadas ao rito tradicional. Exemplo de amor à tradição litúrgica e comunhão com a Igreja”. Não é preciso sair da Igreja para você guardar a tradição litúrgica e doutrinal. Como muitos fazem, “ah vamos fazer um grupinho separado, vamos nos separar da Igreja”… Não! Fora da Igreja não há salvação. Não adianta você fazer grupinho aqui e ali se não está ligado à Igreja. Ora, a Administração Apostólica é uma criação da Santa Sé! Para quê? Exatamente para conservar na comunhão da Igreja os católicos ligados à liturgia tradicional. O principal que eu desejo é isso: que todo mundo guarde esse amor pela missa de São Pio V, esse amor pela liturgia, mas um grande espírito de comunhão com a Igreja. Comunhão com o Santo Padre, com os bispos do mundo todo, o colégio apostólico, com o bispo local e ,no nosso caso, comigo, que sou o bispo da Administração Apostólica. E esse espírito de comunhão com todos os outros católicos. Mesmo que eu não goste de certas coisas que vejo fazerem, não posso falar que não são católicos. Eles são meus irmãos na fé. E entre nós de modo especial. Não ficar alimentando espírito de fofoca, espírito de crítica, cada coisinha tem que examinar… Esse espírito de fiscalização dos padres: o padre está certo, não está certo. A gente tem que ter espírito de comunhão, espírito de humildade e não se achar o tal. Claro que temos que ter cuidado de não cair no erro e na heresia, mas não esse espírito de crítica.
TE – Muito obrigado, Dom Fernando.
DF – Eu dou minha bênção para todos e espero que todo mundo conserve esse bom espírito.
29/01/2009 às 14:55
[...] da missa em latim. O que podemos esperar mais nesse sentido de Roma? … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]
15/07/2009 às 12:00
[...] religiosas de várias congregações, seminaristas, sacerdotes e o bispo. Sim, até o bispo, D. Fernando Arêas Rifan, está. E ele e os sacerdotes da Administração Apostólica são todos terciários [...]