Em um tópico pra lá de agitado na Católicos, o tema do fim-de-semana foi, claro, o decreto anulando as excomunhões.
Trago para cá as coisas mais relevantes ditas lá.
D. Antonio Keller fez uma avaliação por demais lúcida e imparcial da situação, veja:
Por um ato de grandeza, o Santo Padre aceitou o pedido (pedido que poderia ter sido negado…) do superior da FSSPX revogando a excomunhão que pesava sôbre os quatro bispos ordenados de forma ilícita. O resto, agora, são conjecturas, opiniões, etc…A carta de D. Fellay expressa a alegria por isto, reconhecendo o gesto magnânimo do Santo Padre.
A partir de agora, inicia-se uma nova fase: que lugar a FSSPX ocupará no “Corpus Ecclesiae”. como a FSSPX poderá ajudar a Igreja a acolher e entender com maior cuidado a Tradição; em que sentido a FSSPX entende que a Igreja tenha-se desviado da autêntica Tradição, com a reforma liturgica, a questão do diálogo ecumênico, e outros pontos nos quais a FSSPX discorda do Concílio Ecumênico Vaticano II. Nem a FSSPX está negando sua visão, nem a Santa Sé está abandonando o Concílio Vaticano II. Agora, como já tinha dito antes, começa uma nova fase, a do diálogo. Parece que alguns já estabeleceram quem ganhou ou quem perdeu. Por favor, este não pode ser o nosso espírito. Se ficarmos no prisma de quem perdeu, ou quem ganhou, com ufanismos infantis. Vamos nos esquecer da caridade, e cair na mentalidade de times de futebol. Por favor, não é. Quem ganhou foi a Igreja, a “Sancta, Una, Catolica et Apostolica Ecclesiam”.
Então, penso que vivemos um momento histórico. A aproximação de um grupo de irmãos (coeptum fidelium), que se organizaram na busca de uma fidelidade à Tradição da Igreja. Um grupo consistente, que tem razões, segundo sua visão teológica, em não aceitar determinadas situações criadas após o Concílio Vaticano II. Não é um grupo de traidores da fé, pelo contrário. Resistiram de forma organizada, segundo critérios fundamentados na fé, a uma situação por eles considerada anormal na Igreja. O como organizaram-se, a maneira de levar adiante esta contestação, isso sim podemos discutir, não a intenção, que sempre foi aquela de fidelidade à Igreja de Cristo. Poderia ter sido de outra forma, de outra maneira? Talvez, apesar que “poderia” não é a realidade. Tudo pode ser diferente, mas em cada momento, diante de situações bem concretas, fica difícil às vezes não sómente ser compreendido, mas também compreender.
Temos, a meu ver, ainda outro grupo, talvez este mais consistente, que são aqueles que “engolem” com muita dificuldade a visão do Santo Padre, denominada com muita propriedade, a “hermenêutica da continuidade, da não ruptura” que distingue o espírito e a realidade do Concílio Vaticano II. Este grupo, muito mais numeroso, mais consistente, talvez não tão organizado, está disseminado em todas as realidades eclesiais e em todas as partes do mundo, alimenta-se da grande parte de teólogos e pastoralistas da Igreja, que fazem ouvidos moucos (em bom português: são surdos mesmo) à visão, aos pronunciamentos, aos documentos, etc., emanados da autoridade suprema da Igreja. São aqueles que continuam a fazer exatamente aquilo que aprenderam, ouvindo ou vendo fazer, nos abusos não autorizados pelo Vaticano II, usando a autoridade do mesmo Concílio para fundamentarem suas visões aberrantes a respeito de Doutrina, Liturgia, Moral, Ecumenismo, etc. [OBS: Aqui ele fala da TL, que está alastrada como erva daninha]
Finalmente, existe um terceiro grupo, uma terceira realidade na Igreja de hoje, que são aqueles que estão em sintonia com o Magistério da Igreja, em espírito e em verdade. A estes, a situação dos nossos irmãos da FSSPX incomodava muito, no sentido de sofrer também em ver que, de alguma maneira estes irmãos tinham razão, mas não em tudo, já que segundo a visão deste grupo, deste “coeptus fidelium” também consistente, também buscando a fidelidade à Igreja, a separação sempre foi uma chaga. Ver irmãos nossos, com a mesma fé, separados, com o dedo em riste contra nós, acusando-nos de traição à Tradição que tanto amamos, não é nada agradável.
A atitude do Santo Padre, a meu ver, vem de encontro a esta situação dolorosa, muito mais dolorosa para João Paulo II, que teve que engolir esta “separação” em seu pontificado, claramente voltado para sanar os problemas com o outro grupo de católicos, os que causaram e continuam a causar um mal ainda maior para a Igreja, estes sim traindo e abandonando a Tradição.
Bento XVI, de certa maneira, a meu ver, fez aquilo que todos nós, tanto os da FSSPX como os católicos que sempre procuraram estar unidos ao Santo Padre, reconhecendo no espírito e na letra do Concílio Vaticano II não uma ruptura, mas uma continuidade com a legítima Tradição da Igreja, então, ele fez o que nós mais queriamos que acontecesse: o diálogo desarmado e construtivo.
Não temos posições para defender ou para renunciar: temos a Igreja, a qual queremos cada vez mais bela e resplandecente na fidelidade a Cristo. Agora, após esta atitude que inclui humildade, magnânimidade, que são coisas de Deus, porisso, produzem alegria e paz, resta ainda, na Igreja um grave problema para ser afrontado. Aquele do “segundo grupo”… a meu ver, muito mais grave e sério, já que indefinido, e que age de forma subreptícia, por baixo dos panos, e que está presente, diria, fortemente presente, em muitas realidaes ecleisiais (cúrias, seminários, institutos teológicos, etc…). Estes não tem mudado em nada sua visão e sua ação…
E ele coloca, como vemos, a situação em linhas bem reais e sem a paixão de um dos lados.
Agora, restam algumas questões de ordem prática, como disse o Rafael Cresci no tópico:
(Por isso que creio que 2 depende de 1).
Se Sua Santidade definir (2) antes de (1), então ele já vai estar dando pistas do que pretende fazer a respeito da Fraternidade em si.
Fora a situação dos padres, que atualmente continuam a ver navios e estarem suspensos a divinis. Eles têm de ser de-suspendidos e incardinados em algum lugar: nas sedes titulares dos bispos (que no momento continuam sendo bispos de lugar-nenhum), numa prelazia, num instituto ou numa congregação religiosa.
Vamos ver qual será o caminho que tomará a FSSPX como estrutura dentro da Igreja agora.
Se bem que uma mosquinha azul me fala que Dom Fellay e o Santo Padre junto com o cardeal prefeito da congregação para os bispos já teriam feito um esboço de como seria. Senão, o ato de hoje seria somente um caos no vazio. E o Papa não age assim.